quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O deus das trincheiras

por Luis Fernando Veríssimo

Dizem que na Primeira Guerra Mundial, durante as tréguas de Natal, de uma trincheira se podiam ouvir as comemorações na trincheira inimiga. Nos dois lados cantavam hinos cristãos e havia sermões e imprecações a Deus, que era o mesmo para os dois lados, mesmo que as religiões não fossem as mesmas.
Os capelães militares sempre tiveram a dura tarefa de convencer as tropas e a si próprios de que o Deus a que rezavam lhes daria a vitória. Já que não podiam dizer que cada lado tinha o seu Deus e o deles era mais forte, inferiam que o Deus invocado era único, mas tinha seus gostos, e os preferia. Deus torcia por eles, não importava o que dissessem os capelães do inimigo.
Não existem capelães com o mesmo problema no futebol, mas está implícita em toda mobilização de fé religiosa antes do jogo um pedido para que Deus favoreça um lado e não ouça o outro. E em todo agradecimento para o alto depois de um gol ou de uma vitória, e em toda frase de exaltação a Jesus impressa numa camiseta, está implícito um reconhecimento da parcialidade de Deus.
Deus deveria ser banido dos campos de batalha para não se comprometer com a pior das atividades humanas, agravada pela hipocrisia, e proibido de entrar em campo de futebol para não arriscar sua reputação de isenção e fair-play. A única função de Deus num campo de futebol deve ser a de evitar a perna quebrada e o mal súbito. E, está bem, dar uma fiscalizada no juiz.
Nada contra a fé de cada um. Acreditar é bom e é bonito, e é claro que a maioria dos jogadores pede e agradece a Deus não vitórias, mas sua integridade física e seu sucesso pessoal, seja jogando no Palmeiras ou no Já Vai Tarde F.C. Mas os jogos da seleção brasileira têm se transformado em verdadeiros bazares de ostentação religiosa. Que algumas das marcas de fé exibidas são de picaretagens notórias nem vem ao caso. As vitórias são publicamente creditadas a Jesus e sua bênção vitoriosa agradecida com fervor.
Imagino o constrangimento de jogadores e membros da comissão técnica que não são crentes, ou pelo menos crentes a esse ponto, obrigados a participar daquele círculo de oração de graças, ajoelhados, que tem encerrado as participações triunfais do Brasil em torneios internacionais. Por coerência, o mesmo círculo deveria ser formado nos casos de insucessos brasileiros, para cobrar de Deus a mudança de trincheira.
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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Não pise no calo de um cigano

terror pastelão do bom!!Arraste-me para o Inferno (Drag me to Hell), é um delicioso terror no melhor estilo B, do diretor da lucrativa franquia Homem-Aranha, Sam Raimi. Com este filme, Sam Raimi volta ao estilo que o consagrou na década de 1980 com filmes como, "A morte do demônio" e "Uma noite alucinante".
Não pretendo apresentar aqui a sinopse, darei apenas a minha opinião de leigo sobre o filme. Então vamos lá; como todo filme B que se preze, "Arraste-me ..." têm além de muito susto, boas pitadas de terror pastelão, que rendem algumas boas risadas, pelo exagero e absurdo das situações, por vezes totalmente improváveis. Ou seja, o filme não se leva à sério, até mesmo porque nem deveria. Mas nem por isso, o espectador deixa de levar susto e de se interessar pela história; de querer saber o que acontecerá com uma mulher que têm seus dias contados. O filme têm muitos méritos, e um dos maiores é que ele não é previsível. Apesar de simples, a história é interessante e envolvente; prende a nossa atenção. O empolgante final é bem legal.
Enfim, a película aborda também questões como a ganância, ambição; de como alguém aparentemente bom pode, pelas circunstâncias que lhe são apresentadas, agir de forma éticamente duvidosa com o fim de alcançar seus objetivos. Ou seja, não deixa de ser uma crítica velada a um mundo onde vigora a lei do cada-um-por-si, onde o que importa é ser bem sucedido, ter dinheiro no bolso e o resto que se dane. Mas para além disso tudo, poderíamos dizer apenas: não pise no calo de um cigano.
Para quem curte esse tipo de filme, vale uma visita ao cinema, mas para aqueles que não se interessam nem um pouco por histórias escatológicas, é melhor nem chegar perto.
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domingo, 2 de agosto de 2009

Obama e a cerveja da discórdia

E tudo terminou em cerveja !!!!E o Obama heim! Que saia justa ele foi se meter, coitado! Quinta-feira, nos jardins da Casa Branca, estava ele sentado numa mesa bebendo cerveja com o seu vice, Biden, o professor negro de Harvard Henry Louis Gates Jr, e o sargento da polícia de Massachusetts James Crowley.
A história todos sabem, o professor tentava entrar em casa, a chave emperrou e com a ajuda do motorista do taxi (que também era negro) ele tentava abrir a porta quando uma vizinha ao vê-lo, não titubeou e ligou pra policia, pois claro, um preto (ou melhor, dois) tentando entrar numa casa só pode ser ladrão. O que se seguiu foi uma lamentável mistura de abuso de poder com pitadas de preconceito; pois policial que esteve no local, não só não deu nem bola para os protestos do cidadão (que ao que parece, para os brancos de Massachusetts, só teria cometido o crime de ter nascido negro), como também o algemou e o levou preso. Descoberta a lambança, o professor foi solto, e Obama (que é amigo dele) fulo da vida, disse que a ação policial foi estúpida. Ora, acho q o Obama disse apenas o óbvio, o mais do mesmo. Mas não, a declaração do presidente foi recebida com consternação, como se ele tivesse cometido uma grande injustiça contra o policial. Sindicatos de policiais dos EUA exigiram que o presidente Obama pedisse desculpas pelos comentários que eles consideraram ofensivos. Enfim, criou-se assim, um clima constrangedor para Obama, que como presidente não podia perder o controle da situação, tinha que mostrar quem tem pulso. Portanto, ao ver que seu comentário criou polêmica, procurou colocar panos quentes e encerrar um assunto que podia dar ainda, muito pano pra manga e bastante dor de cabeça. Foi assim que ele resolveu chamar as partes envolvidas para uma lúdica tarde de cerveja no quintal da Casa Branca. Foi uma situação no mínimo insólita.
Mas para além disso tudo há algo muito mais importante, que óbviamente não se resolve bebendo cerveja com o presidente. Então um cidadão inocente que teve seu direito de ir e vir e de se defender, negado por uma autoridade - que deveria garantir-lhe a segurança e o bem-estar - não foi ofendido, humilhado? Isso pode ser encarado como um simples engano?

Mas o que me parece é que essa polêmica deixou claro que há muito mais do que um simples e lamentável engano nessa situação toda. Fica patente nesse caso, que o racismo é uma espécie de veia aberta naquela sociedade, uma ferida que embora inspire preocupações sinceras por parte de setores da sociedade americana, ainda está longe de cicatrizar. Mas o que é ainda mais preocupante que o racismo em si, é a conivência que uma sociedade pode manter com um ato tão hediondo, a ponto de se tornar cega, de não enxergar seus vestígios, pois eles mesmos já são parte do seu cotidiano. Nessas situações, as pessoas tendem a não se dar conta disso, pois já lhes é algo tão entranhado e corriqueiro que passa despercebido. O perigo está ai, o racismo se tornar tão banal, que não choca mais ninguém, ao ponto de uma reação apropriada à ele ser entendida como uma ofensa, como uma reação desproporcional. Afinal, tudo não passou de um triste engano, não é mesmo? E como tal deve ser encarado. Ponto final. Esse tipo de coisa vai continuar acontecendo, como aliás acontece todos os dias, sabemos disso; como sabemos também que o problema não é uma particularidade americana. O fato é que normalmente as vítimas diárias desse tipo de abuso são pessoas que não merecem espaço na mídia.
Abraços!!
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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Kaká: o homem mais sortudo e abençoado do mundo

flagrante do momento em que Deus toca Kaká, o escolhido!!"Algumas vezes um homem inteligente é forçado a ficar bêbado para passar um tempo com os burros."

A frase do genial e cáustico Hemingway serve bem para ilustrar esse post. Há coisas que a gente realmente não acredita que podem acontecer e quando acontecem ficamos perplexos, no caso, não só pelo total absurdo da situação, mas também por representar um exemplo cabal de como o ser humano pode chegar à raia da estupidez; e o pior, como se não bastasse, muitos ainda veem isso, como algo normal, um sinal de fé, algo a ser admirado e seguido.
Mas vamos lá. Acontece que dias atrás a mulher do jogador Kaká, Caroline Celico (que por sinal, é pastora), fez uma declaração onde credita à Deus a transferência milionária do seu "iluminado" Kaká para o Real Madrid, justamente num momento de crise global (clique aqui e saiba mais detalhes).
Eu não sei, será que só eu vejo algo de grotesco nisso?! Tenho certeza que não estou exagerando. É qualquer coisa de nonsense, chega a ser mesmo inacreditável e porque não, desrespeitoso para com aqueles que não podem contar com a ajuda do bondoso Deus (mão aberta) do Kaká. Pois certamente, não é o mesmo deus da grande maioria das pessoas, que têm que batalhar um dobrado pra conseguir viver honestamente. Concordemos pois, que esse Deus não têm qualquer senso de proporção; senão vejamos, ele ajuda um homem milionário a ficar ainda mais milionário, quando há milhões e milhões de outros filhos seus (muitos bastante religiosos) que passam a vida inteira à míngua (e não por falta de trabalho e suor). Ainda poderíamos considerar os salários astronômicos que esses jogadores recebem, sem qualquer parâmetro com a vida real, mas não entrarei no mérito dessa questão.
Enfim, não consigo compreender qual o senso de justiça (nesse caso uma suposta justiça divina) que gente do naipe da senhora Kaká tem, se é que tem algum. E o pior, ela não está fazendo graça, ela não é uma piadista (e se fosse, coitada, não teria futuro algum, pois não há nada de engraçado nisto); tenho absoluta certeza que ela acredita piamente no que fala. E isso é que torna toda a situação ainda mais absurda. Ela não profere tais asneiras só pela "curtição"; mas é bem verdade que no fundo a gente fica esperando a pessoa virar e falar:
-"Gente, to de sacanagem com a cara de vocês. Não acredito que levaram a sério o que eu disse!!!...hahaha... Ai, que idiotas!!!"

Mas não é sacanagem, não!! Pois no mundo real as pessoas falam e fazem coisas que até "Deus" duvida!! Enfim, vamos conferir algumas pérolas proferidas pela bonitinha e sortuda senhora Kaká.

"Foi um sinal de que eu respeitava o Senhor, e agora há um sinal de Deus, através do Real Madrid."

"Como alguém, neste período de crise, pode valer tanto dinheiro? É porque Deus colocou o dinheiro nas mãos do Real Madrid, para recrutar Kaká."

"Com isso, nós podemos abrir uma igreja em Madri, já que há pessoas que precisam ouvir nossas palavras."

Para quem acha improvável que alguém possa dizer tamanhos absurdos, é só acessar o vídeo no Youtube (clique aqui); e verá que sim, esse mundo realmente está perdido!! Do jeito que andam as coisas, qualquer dia Deus vai oferecer o trono celeste para o Kaká ocupar!! Mas por agora por favor, me deem licença, preciso encher a cara!!

Abraços!!
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quinta-feira, 6 de março de 2008

A América do Sul prende a respiração

Não apoio as fanfarronices do Chaves; e inclusive, acho ridícula essa história de revolução bolivariana. Os seus recentes ataques verbais contra a Colômbia e o envio de tropas para a fronteira com este país, foram de fato desnecessários, e apenas contribuíram para colocar mais lenha nessa fogueira. Além é claro, de ser um prato cheio para a direita reacionária se acabar em críticas, fazendo, com que o Uribe se transforme em uma espécie de vítima da situação. Enfim, desaprovo qualquer discurso de cunho belicista.
Por outro lado, é inadmissível uma situação em que um país invade o outro e ataca guerrilheiros com bombardeio de aviões e tropas a desembarcar de helicópteros e capturar corpos. Isso claro, sem o consentimento, ou mesmo, conhecimento por parte dos equatorianos. Sinceramente não acho que tal atitude se justifique.
Em 14 de Fevereiro, a agência EFE, já noticiava as invasões do território do Equador por forças colombianas e a irritação de Correa com esse tipo de atitude agressiva (clique aqui).

A Colômbia, como é de conhecimento de todos, recebe pesado apoio militar americano (nos mesmos moldes de Israel). Aliás, com essa ação, a Colômbia demonstrou uma similaridade espantosa com a política de choque adotada (e tão criticada) tanto por EUA quanto por Israel. Não seria absurdo dizer, que a política colombiana (através do Plano Colômbia) é do embate armado, e claro, a aniquilação do inimigo; não cabendo portanto, a diplomacia. As famílias dos sequestrados, sabem muito bem disso, e Uribe nunca escondeu que sua política para com as Farc é puramente militar, de choque.

Outra questão interessante, é que se procura discriminar as Farc alegando que as mesmas são terroristas e mantêm relações com o narcotráfico. Ou seja, com esse tipo de gente não há diálogo, ou melhor, o único diálogo viável é o das armas. Porém, os que defendem essa premissa, talvez esqueçam dos paramilitares (grupos de extrema-direita), que em termos de violência, não devem nada às Farc; além, claro, da relação que esses grupos mantém com o narcotráfico (a exemplo das Farc). A diferença crucial, é q os para-militares, têm uma relação histórica e bastante escusa com a direita colombiana, e de fato a história mostra até uma certa tolerância (para não dizer, cumplicidade) dos militares colombianos com os paramilitares. O próprio Uribe, não é segredo pra ninguém, tem relações com estes.
Não é de se espantar portanto, que com esses, o governo colombiano tenha buscado o caminho da negociação, a via diplomática. Concedeu a anistia (embora muitos tenham permanecido em armas, e sabe-se lá que destino tiveram aqueles que depuseram as armas), perdoando assim, os crimes destes; mas nunca esboçou fazer nada semelhante em relação aos guerrilheiros das Farc.

Não estou aqui a defender as Farc, abomino o tipo de violência da qual eles se utilizam, e acho que a via das armas, sobretudo no exemplo colombiano, não vai levar a nada. Mas achar que as Farc e o bravateador do Chaves são os grandes vilões dessa história, e que o Uribe é apenas uma vítima; é a mesma coisa que acreditar naquele papo furado, de que vivemos numa eterna luta entre o Bem e o Mal (só mesmo o Bush e seus lacaios para acreditarem nisso). Como já dizia Shakespeare: Há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha nossa vã filosofia.

O Uribe é quem criou essa crise, e ele sabia muito bem das consequências diplomáticas dessa ação tresloucada. Tal ação, periga, caso seja vista como um direito de defesa da Colômbia (como querem os americanos), abrir o precedente aqui na América Latina, da violenta e ineficaz guerra ao terror, sob a chancela dos EUA.

Espero, no entanto, que o acordo firmado na reunião da OEA ontem, tenha mostrado que não aceitaremos em nosso continente a prerrogativa da guerra ao terror, a qual os EUA tentam espalhar pelo mundo.

Abraços!
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O caso Veja: as víceras expostas da mídia

Já ouviu falar a respeito do Dossiê Veja, caro leitor? Se a resposta for negativa, peço para que não perca mais seu tempo e dê uma conferida no show de jornalismo de Luis Nassif.
O Dossiê em questão, é uma longa série de reportagens a respeito dos bastidores desse grande mostro editorial brasileiro. Confira e se surpreenda (se é que isso ainda é possível) com toda a lama que envolve o nome e a história dessa publicação. Esse tipo de devassa não será televisionada ou publicada na grande mídia, até mesmo porque, as outras publicações não estão muito longe da Veja com relação à sujeira e falta de ética.
Basta, dessa imprensa desonesta, golpista e elitista. Jornalistas com a coragem de Luis Nassif estão em falta em nosso país. E haja coragem. Pois é de conhecimento de todos a agressividade que a Veja dispensa aos seus desafetos (a tal lista negra). Assim, não é de surpreender, a ameaça de processo da editora Abril contra Nassif; simplesmente porque este resolveu investigar e mostrar às verdades que precisam ser contadas.
Esta é sem dúvida alguma, uma luta árdua, mas enfim, é muito bom saber que há gente competente e disposta o bastante, para mostrar à sociedade o lado podre de uma imprensa que se considera o bastião da ética, honestidade e imparcialidade.

Abraços!!

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Fidel Castro: O fim de uma era

O polêmico presidente Fidel Castro anunciou hoje (terça-feira) que não voltará a governar o país. Há quase meia década comandando Cuba com mãos-de-ferro, Catro, com a saúde já bastante debilitada, deixa um legado de importantes mudanças sociais, mas também de opressão e cerceamento das liberdades individuais.
É uma das figuras mais controversas da política mundial da segunda metade do século XX. Liderou (junto com Che Guevara) uma revolução na ilha derrubando o governo do autoritário Fulgêncio Batista, promovendo a seguir, reformas sociais significativas, sobretudo nas áreas de educação e saúde. Segundo o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), Cuba atingiu indicadores sociais dignos de países europeus (veja aqui).

Mas não podemos esquecer também, os muitos exemplos de desrespeito aos Direitos Humanos, como os tribunais populares, logo após a revolução, que julgaram (com uma rapidez impressionante) e condenaram ao fuzilamento, milhares de opositores. As prisões por questões políticas, torturas e a proibição de livros (ou qualquer coisa que não esteja conforme os preceitos da revolução de Fidel), estão entre outras tantas lamentáveis facetas do regime. Enfim, a falta de liberdade é um preço alto demais que o povo cubano paga, e isso não me agrada nem um pouco; de fato, os direitos individuais não devem ser usados como uma moeda de troca (se perde aqui, mas se ganha ali). Se de um lado tal atitude contribuiu para fortalecer Fidel, por outro, acredito que isso promove um desgaste gradual da Revolução e de seu (suposto) ideal de liberdade. Uma faca de dois gumes.

Seria, porém, desonesto da minha parte criticar Fidel sem criticar seu arqui-inimigo, o governo do Estados Unidos. Ora, desde a Revolução, os EUA nutrem um ódio colossal por Fidel e seu regime. Há motivos, além do fato óbvio de Cuba se situar a algumas centenas de quilômetros ao sul da Flórida (e uma república comunista nas barbas do Império é inaceitável). Empresas americanas mantinhas negócios na ilha, muitos deles bastante escusos diga-se por sinal, incluíndo aí a presença forte da máfia.

A Cuba de Fulgêncio Batista era muito mais um quintal dos EUA do que um país de fato; uma República das Bananas que viva em função dos dólares americanos. Fulgêncio era tão impopular, que quando do começo dos embates com os rebeldes de Fidel, muitos dos soldados do exército, abandonaram as fileiras se recusando a lutar contra os revolucionários. Não há dúvidas, apesar de todas as mazelas, o cubano hoje é um povo orgulhoso de si (e esse orgulho não têm a ver com o patriotismo racista e preconceituoso que vemos na Europa e nos Estados Unidos).
Os EUA optaram por lançar mão do terrorismo, com o intuito de assassinar Fidel e desestabilizar a ilha, incluindo aí, até ataques de aviões americanos, contra fazendas, plantações e cidadãos cubanos. Sem esquecer, claro, o embargo que perdura até os dias atuais (e que de certa forma, serve muito bem aos propósitos de Fidel). Tudo isso culminou na patética invasão à Baia dos Porcos, por cubanos anti-castristas da Flórida, comandados pela CIA.
A coisa só começou a mudar e as sussessivas tentativas de derrubar fidel do poder foram se arrefecendo (embora não tenham de fato acabado), depois da crise dos mísseis, que colocou o mundo à beira de uma guerra atômica.

Por fim, falar de Fidel apenas destacando o seu lado negativo, é no mínimo, tendencioso. Ele é sim digno de críticas, e não poucas, mas daí a negar ou ignorar os importantes progressos promovidos pelo regime na ilha (dignos de inveja à qualquer país latino-americano), mesmo em vista de um embargo sufocante, é querer ser desonesto (vide a revista Veja).

Abraços!!
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Judaísmo, anti-semitismo, sionismo

Por Mateus Soares Azevedo*,
extraído da Folha de S. Paulo

"Insensatos, prestai atenção: recebei minhas instruções com maior gosto do que se recebêsseis dinheiro, pois a Sabedoria vale mais do que todas as riquezas. Comigo estarão a glória, a opulência e a justiça. Feliz o homem que ouve a Sabedoria."
Extraídas dos Provérbios, de autoria de Salomão, são as palavras da "Sabedoria" personificada. Elas assinalam o lugar privilegiado do conhecimento no judaísmo, tradição monoteísta que tem seu eixo num livro sagrado. A Torá contém os Dez Mandamentos, principal legislação do Ocidente dos últimos 3.000 anos. Até hoje não colocada em prática ("não usarás o Nome do Senhor em vão, não matarás, não roubarás..."), é tão central que ultrapassou suas fronteiras originais, sendo incorporada por cristianismo e islã. Distintamente dessas religiões missionárias, que buscam prosélitos entre todos os povos, o judaísmo não busca conversos e só raramente os aceita.
O judaísmo legou também os Salmos de Davi, venerados pelos cristãos, e os livros sapienciais de Salomão. Davi fez de Jerusalém sua capital, há 3.000 anos, e Salomão construiu o Templo. Destruído em 600 a.C. e reconstruído, foi arrasado em 66 d.C. pelos romanos. O Muro das Lamentações é o que restou dele.
A derrota para os romanos marca a Diáspora -a difusão dos judeus pelo mundo. Curiosamente, a despeito das tensões, suas comunidades somente prosperaram em terras do islã ou do cristianismo. Vem da Espanha muçulmana um dos ápices de sua cultura, com espetacular florescimento da mística e da filosofia, como testemunhado pelo Zohar -Livro do Esplendor-, principal exposição do esoterismo judaico, e pelas obras de Maimônides.

Há ainda o messianismo. Em oposição ao cristianismo e ao islã, para os quais o Messias já veio, o judaísmo sustenta que ele ainda está por vir, para implantar paz e justiça universais. Imagina-se então o fim da Diáspora.

Não se deve confundir essa concepção com o moderno sionismo. Sua ideologia nacionalista e expansionista é uma secularização do ideal messiânico. O sionismo não é parte constitutiva da religião; ainda hoje rabinos se lhe opõem tenazmente, como Moshe Hirsch, de Jerusalém, que prega a devolução integral das terras tomadas na Palestina.

De fato, entre 1947 e 1948, 1 milhão de palestinos foram expulsos de suas terras; cerca de 1 milhão de colonos originários da Polônia, Alemanha, Rússia e outros países as ocuparam. Seu argumento é que foram expulsos por invasores estrangeiros sem vínculo real com o lugar. "Minha família foi responsável pela guarda do túmulo de Davi por 800 anos", disse-me um palestino. "Que direito têm esses recém-chegados de nos expulsar e ocupar nossa terra ancestral?" Para um observador externo não envolvido nas paixões em jogo, o argumento é irrepreensível.
Não se deve confundir anti-sionismo— oposição política a um nacionalismo expansionista — com anti-semitismo

Tenha-se em conta ainda a humilhação sistemática da população nativa, a detenção em massa de civis, o espancamento de inocentes, deportações, destruição de casas e campos de cultivo, fechamento arbitrário de escolas e instituições, ocupação militar de cidades e vilarejos. Isso sem falar dos assassinatos "seletivos", do terrorismo de Estado -e da instalação de cercas em torno daquilo que A. Gattaz, em "A Guerra da Palestina", chama de o maior "campo de detenção" do mundo, a faixa de Gaza, onde "vivem" mais de 1 milhão de palestinos.

Numa época em que tanto se fala de direitos humanos, é inacreditável que o mundo assista inerte ao seu maciço e cotidiano pisoteamento. Não surpreende que mesmo profissionais universitários e mulheres tenham começado a praticar ataques suicidas, signo de sua desesperadora situação.

Não se deve, assim, confundir anti-sionismo -oposição política a um nacionalismo expansionista- com anti-semitismo. Quanto a esse termo, ele é aplicado indiscriminadamente a duas realidades distintas. A primeira é de caráter religioso: trata-se da oposição que cristianismo ou islã fazem naturalmente ao judaísmo, como esse último comporta obviamente uma dimensão anticristã e antiislâmica. Não há aqui nenhum elemento racial envolvido. Seja de nosso agrado ou não, é da natureza das coisas que uma religião necessariamente exclua as outras. Essa é, ademais, a atitude tradicional dos Padres da Igreja, dos escolásticos e também dos protestantes clássicos como Lutero e Calvino, e tem como motivação a rejeição ao Cristo por parte do judaísmo oficial.
A outra realidade também classificada de anti-semitismo é o racismo, universalmente condenado, e que não deve ser confundido com o "anti-semitismo" religioso.Antijudaísmo (religioso; compreensível), anti-semitismo (racismo; inaceitável), anti-sionismo (político; legítimo): três realidades distintas cuja confusão engendra erros colossais de avaliação e de ação.
* Jornalista e ensaísta, é mestre em história das religiões pela USP e autor de "Mística Islâmica" (Vozes, 2002)
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Para O Globo, não há racismo no Brasil

Em reportagem sobre a posse do novo ministro da Igualdade Racial (Edson Santos - PT-RJ), o jornal O Globo, em um pequeno box entitulado Opinião, sem qualquer assinatura (uma prática comum nesse jornal), tenta insinuar em poucas palavras, que racismo é coisa da cabeça de esquerdista e que o Brasil não têm problema algum em relação a isso.
Embora a tal opinião, não seja assinada, presumo que seja de alguém que bebe da mesma fonte de Ali Kamel (isso pra não insinuar que seja uma mera marionete), diretor de jornalismo da Globo, autor de uma pérola literária entitulada Não somos racistas.

Não vou entrar na questão das cotas, é um assunto delicado e controverso. O fator preocupante aí, é querer negar que haja racismo no Brasil, e que um reconhecimento do governo em relação a existência de crime tão bárbaro em nosso país (através da criação de orgãos de defesa e ministérios) é entendido como uma espécie de conspiração esquerdista para desestabilizar uma suposta unidade nacional. [grifo meu]

confiram a opinião de O Globo:
Ao Largo

Merece comemoração a notícia de que aumenta a miscigenação na sociedade brasileira: brancos casam menos com brancos, pretos com pretos, e assim por diante.
Isso significa qua a cultura multirracial deste país é mais forte do que a intenção de grupos organizados, com poder em Brasília, de condicionar à cor da pele o acesso a bens e serviços públicos e até mesmo privados.
Um grave subproduto dessa política é criar tensão racial onde não existe. Ainda bem que a sociedade passa ao largo desse perigoso projeto ideológico.

Abraços!
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Eu etiqueta

o menino Jesus devidamente abençoado pelos deuses do consumo
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Carta ao Papai Noel

Momento de descontração. Revoltado com os presentes que ganhou, menino escreve uma carta a Papai Noel.

Confiram e morram de rir!!



Abraços!!
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sábado, 22 de dezembro de 2007

Queremos é pau-de-arara (parte 2)

a sádica arte da torturaChoques mataram garoto detido por policiais em Bauru (SP)

da Folha Online (18/12/2007 - 10h19)

O adolescente Carlos Rodrigues Júnior, 15, morto na madrugada de sábado (15) em Bauru (343 km de São Paulo) depois de ser abordado por policiais militares foi vítima de tortura com choques elétricos, de acordo com reportagem publicada nesta terça-feira na Folha (íntegra somente para assinantes do jornal e do UOL).
A informação foi dada à reportagem pelo diretor do IML (Instituto Médico Legal) da cidade, Ivan Edson Rodrigues Segura. Um fio desencapado, que pode ter sido usado na tortura, foi apreendido com um policial suspeito de envolvimento no homicídio do garoto.
O garoto foi abordado por seis policiais militares na madrugada de sábado em sua casa, no núcleo habitacional Mary Dota. Segundo a Polícia Militar, ele era suspeito de ter roubado uma moto na noite de sexta (14). Rodrigues Júnior foi agredido e desmaiou. Chegou a ser levado ao hospital, mas morreu.
Segundo a Folha, o laudo do IML de Bauru, que será divulgado hoje, aponta que o corpo de Rodrigues Júnior apresenta queimaduras por choques elétricos. O diretor do órgão adiantou à reportagem que uma corrente elétrica atingiu o coração do menino, o que causou sua morte.
Os seis policiais foram presos no domingo (16) por suspeita de homicídio. Eles estão detidos no Presídio Militar Romão Gomes, em São Paulo.

Agora o que a Folha não disse, foi que os tais policiais, invadiram a casa de Rodriguez Júnior de madrugada, se trancaram no quarto com ele, e o torturaram barbaramente com socos e descargas elétricas. O menino ainda foi molhado para que os choques fossem potencializados. Segundo o IML (Instituto Médico Legal) de Bauru, dez das marcas de choque (foram encontradas trinta marcas ao todo, espalhadas pelo corpo) estão na cabeça - nas pálpebras, orelhas e face. Outras quatro no tórax e duas no saco escrotal. As outras estavam em áreas como costas, mãos e pé.
É estranho como um crime tão hediondo como esse, ainda mais ao se levar em conta que o mesmo foi cometido por autoridades policiais, as mesmas que deveriam prezar pela segurança do cidadão; não tenha causado na sociedade brasileira a mesma comoção de tantos outros crimes (igualmente hediondos). A resposta talvez seja o fato nada desprezível, da vítima ser um negro pobre, e os criminosos, policiais militares.
Eu não consigo imaginar a polícia invadindo um apartamento em Ipanema, no Leblon ou nos Jardins, sem um "mandado de busca" (a Folha esqueceu desse detalhe), e torturar até a morte um garoto acusado de ter roubado uma moto. Claro, da mesma forma seria um crime inaceitável e monstruoso. Mas ao fazer tal comparação, minha intenção é mostrar todo o absurdo da situação. Além claro, de levantar uma questão corriqueira, onde a cor, a aparência, e a conta bancária, fazem sim toda a diferença, tornando um cidadão mais cidadão que outros não tão privilegiados.
Nada trará esse menino de volta, mas pelo menos que se faça justiça. Incapazes de exercer a profissão de servidores da sociedade, esses assassinos de farda (que pra mim não são diferentes de um Elias Maluco, lembram?) devem ser expulsos da corporação, julgados e punidos. Acho que é o mínimo que se pode esperar.
Se esperamos que os assassinos de Jean Charles de Menezes sejam exemplarmente punidos, não devemos ser hipócritas ao ponto de continuarmos a ignorar (e porque não justificar) as atrocidades cometidas pelas nossas autoridades.
Mas de forma alguma isso é novidade. Pelo contrário, a tortura está no cotidiano da polícia brasileira, é algo corriqueiro, senão diário. E o pior, é aceita pela sociedade, que omissa (será propositadamente?), acaba por legitimar práticas dignas da Gestapo.

Abraços!!
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